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Ditadura da falta de educação Osmar Soares O poeta Renato Russo, numa de suas mais expressivas canções, afirmava que “Depois de vinte anos na escola/Não é difícil aprender/Todas as manhas do jogo sujo” e se pergunta: “Não é assim que tem que ser?”. A História respondeu essa pergunta de duas formas bem distintas: os que estavam na Escola, durante 20 anos da ditadura militar aprenderam na carne e no espírito não só as manhas do jogo sujo, mas também a perda da liberdade de expressão; os que estariam nos 20 anos pós-ditadura teriam a escolha de morrer sem a ideologia reivindicada por toda uma geração na voz de Cazuza – os anos 80 foram o início de toda uma apatia que culminaria na anomia critica e ética dos anos 90. A ditadura militar liquidara o conceito de democracia e liberdade individual do País. Como um movimento político retrógrado e autoritário, ela prendeu, torturou, executou, cassou parlamentares, juizes e professores, instalou aparelhos como a censura, e uma mídia tendenciosa e alienante, que veiculava as ideologias do regime face à degradação de ideais comunistas mostrados como ameaça para a saúde do Estado e da ordem pública. A proposta do golpe militar se baseava, principalmente, na palavra “ordem” presente na nossa bandeira acompanhada de “progresso”, como sendo os compromissos de um regime que apresentava uma falsa idéia de calma, tranqüilidade e seguridade social. O militarismo promoveu a degradação dos bens públicos e instituições do governo – a escola pública, por exemplo, que era o espaço em que conviviam classes média e pobre passou a figurar como lugar preterido pela sociedade; mantinha-se uma qualidade no ensino e no funcionamento do sistema público de educação, mas, com o descarado liberalismo do regime, a iniciativa privada ganhou espaço e a escola particular passou a ser sinônimo, inicialmente, de qualidade e fuga para as classes mais abastadas. No sistema educacional, as conseqüências do regime se vêem até hoje: degradação do estudo de humanidades, face à ênfase exagerada sobre as competências e disciplinas que levariam o “Brasil, país do futuro” ao desenvolvimento tecnológico; aumento da oferta de cursos profissionalizantes que garantissem formação para as classes mais baixas e conseqüente alargamento do funil de entrada nas universidades públicas; sucateamento, já comentado aqui, do ensino público nos níveis médio e fundamental – antigos 2º e 1º graus; divulgação descaradas das ideologias governistas através do estudo de OSPB (Organização Social e Política do Brasil), Educação Moral e Cívica, que visavam a pôr o cidadão “a par” conhecimento dos símbolos nacionais e positivismos brasileiros, nesta instância o “ordem e progresso” era mais visado que nunca; limitação das publicações, que passavam pelo crivo dos órgãos de censura – livros considerados comunistas eram deliberadamente impedidos de serem publicados. A escola funcionaria mais do que nunca como “aparelho ideológico do Estado” (ver Paul Altusser) e aqueles 20 anos em que se geraria uma consciência crítica no cidadão, entendida como sendo um dos papéis principais da educação, passaram a figurar como sendo os anos do Ensino Tecnicista, em que a força de expressão e liberdade de pensamento eram reprimidos por uma máquina de fazer máquinas – o regime. Na época, a UNE – União Nacional de Estudantes – foi queimada e proibida; ela representava uma força contra o governo. A militância política contra-ideológica levantava lemas em faixas como “Abaixo a ditadura!” e “Povo armado derruba a ditadura”, numa convocação muito clara dos estudantes ao corpo a corpo e à manifestação destemida contra o governo. Nos 80, tivemos a geração coca-cola, filhos dos que viveram os 20 anos do Regime. Nos anos 80, os estudantes conheceram pela primeira vez a calma. Uma questão se levanta, porém: essa calma perdurou? O cinema desses anos mostra, por exemplo, o ressurgimento (e quiçá o surgimento) das cidades, a tentativa de volta ao desenvolvimento tão prometido nos anos de chumbo. A juventude que vai a esse cinema já não veste roupas naturais, nem põe faixas na cabeça, nem medalhões metálicos com símbolos como “Paz e Amor” ou o corpo nu de Woodstock; pelo contrário, eles vestem calças LEVIS ou LEE, bebem Coca-cola, escutam U2, refletem quando vêem “Pixote”, podem chorar quando sabem de sua morte, mas volta-e-meia se esquecem disso. O que a anistia em 82 e o fim da ditadura três anos mais tarde trouxe para a educação e para a consciência política do País? A nação se confirmou como sendo diversa e desigual – os que pensavam, usavam all star, mas cantavam com Cazuza e Renato Russo “Que país é esse?” e “Ideologia”. Entre a revolta e a apatia, a geração dos 80 é herdeira de pais revoltados e vislumbra com depressão o futuro de um país que começa a ter uma democracia em 89, vê seu presidente eleito morrer; seu sucessor inflacionar a realidade e as contas do Estado e o primeiro de uma série de Fernandos tornar o Brasil uma terra estrangeira para todos. Em 92, a UNE abre a década de 90 pedindo nas ruas o fim da corrupção – o movimento estudantil poderia agora ser movimento sem derramamento de sangue – mas, o gesto ainda foi tímido para uma década de jovens alienados e apáticos. Netos dos “desbundados” de 60 e 70, agem segundo o movimento dos “bunda mole” de 90 e 2000, deslumbrados com os games americanos, as vitrinas e com o computador, geração herdeira de Xuxa e condicionada à apatia até um novo “boom” ou “desbunde” internacional. Os estudantes de hoje não sabem responder a um questionário sobre o que foi a guerra do Vietnã, ou em que consistiu o Golpe de 64, os movimentos estudantis de 68, o porquê do impeachement de 92. Sua consciência crítica vai desde aceitar a letra de um funk que canta a mais-erotização como válida num tempo de violência e falta de projeção social a ouvir, nas camadas mais abastadas, o mesmo funk com curiosidade de quem vai ao morro pra comprar as drogas com que se vicia nas quadro paredes com grades e segurança dos condomínios. As manhas do jogo sujo – todo esse jogo descrito aqui – eram para realmente terem sido vistas e exploradas nos nossos 20 anos de escola, mas o Jornal Nacional o mostra e os clichês se repetem: “Brasil, país do futuro, até quando?” ou “O país não vai pra frente”. O JN é seguido pela novela que mostra a cultura totalizante e “viável”, nossos valores que não “derrubam reis, nem fazem comédia com nossas leis”. Que geração poderá realmente gargalhar? Que a escola o responda. Escrito por Avó Peluda às 14h00 [ ] [ envie esta mensagem ] VIDA INTELIGENTE NA MADRUGADA Muito bem, depois de meses órfãos de Daltro Cavalheiro no comando do programa "Alegria, Alegria", estamos sendo presenteados pela RedeTV! mais uma vez; agora com o programa "Artistas & Companhia", comandado por Ravel (acho que é esse o nome dele). [b]Descrição[/b]: O programa (?) passa às 2 da manhã de sábado, concorrendo com todas as maravilhas repetidas pela MTV, com as maravilhas caras da TV a cabo e com "A vida inteligente na Madrugada", isto é, "Altas Horas". Perguntem-me o que prefiro? É claro que é muito mais divertido ver o filhote-de-cruz-credo Ravel, com óculos escuros, cabelos mais crespos que os de Reginaldo Rossi, cantando: "Obrigado ao homem do campo/ obrigado ao trigo, Senhor/ Obrigado à toda a lavoura". O hit não se limita só ao homem e às coisas do campo não, ele também canta o tema universal da poesia, o amor e as brigas entre homem e mulher na cama. [b]Diversão[/b]: Como Daltro Cavalheiro, Ravel divide o palco com uma moça, não tão gorda, não tão barriguda, não tão loura, não tão com uma lapa de nariz, não tão convencida quanto Kássia Franco - a que substituiu o Cavalheiro no fatídico desaparecimento dele. A moça que acompanha o nosso novo e futuro ídolo é mais magrinha e mais, digamos, órfã de inteligência e devota da Santa Ignorância: "Então, vamos ver qual será nossa próxima atração?" Nisso, o Ravel lhe aponta ou lhe dá uma deixa que até Avós Peludas Míopes vêem, e ela vai até a próxima atração e diz: "E aí?". Muito bom. [b]Atrações[/b]: Os números vão desde imitadores de Roberto Carlos com cara de doente até grupos de música baiana com meninas e menin(o)s dançando muito. Dançam muito. [b]Platéia[/b]: Destribuídos em mesas pelo estúdio - mesas com flores de festa de 15 anos - eles sofrem com a câmera que focaliza os poros da sua pele facial, o gel no cabelo. Ou não. Quando se dá um close em alguma porporinada, elas sorriem enquanto balançam a cabeça ou os braços. Ótimo. Já não ficarei com tanta depressão nas noites de sábado. Viva o trabalho árduo dos nossos produtores da TV brasileira. Avó Peluda Escrito por Avó Peluda às 13h12 [ ] [ envie esta mensagem ] |
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